segunda-feira, 27 de abril de 2015

Lula e seu destino

Lula sente-se à vontade para pavimentar seu retorno ao poder. O PT não tem outro candidato


Ricardo Noblat
Nem sempre o mais simples é o mais certo. Mas com frequência é. Por que Lula se exibe em um vídeo postado na página do seu instituto onde aparece suado fazendo ginástica?
Ora, para dar o recado de que está em boa forma e disposto a enfrentar novos desafios.
Exemplo de um? A campanha para voltar à presidência da República daqui a quatro anos, sucedendo a Dilma. De fato, ele não pensa em outra coisa.
De vez em quando, desafetos de Lula sugerem nas redes sociais que ele não está bem de saúde. Quem não está bem de saúde não faz esteira e nem carrega peso.
Com o vídeo, ele prova que vai muito bem, obrigado. O resto ele mesmo se encarrega de propagar por aí em reuniões montadas para injetar ânimo na combalida militância do PT.
Lula só fala em ambientes blindados contra vaias. Foi assim na última sexta-feira.
“Nós temos de dizer para a companheira Dilma ouvir e para os nossos deputados e militantes ouvirem que nós precisamos começar a dizer o que faremos neste segundo mandato”, cobrou Lula no discurso de abertura do 3º Congresso das Direções Zonais do PT de São Paulo.
“Qual é a política de desenvolvimento que colocaremos em prática? Qual o tipo de indústria que iremos incentivar?”
Lula reprova o governo monotemático de Dilma, que há mais de 100 dias só valoriza o ajuste fiscal como meio de pôr em ordem as contas públicas. É como se nada mais existisse.
O governo só conseguirá enfrentar o mau humor dos brasileiros se for capaz de criar notícias positivas. Ou novas utopias, como prefere Lula. Agarrar-se aos programas Bolsa Família e Minha Casa, Minha Vida não adianta mais.
Invariavelmente, o discurso de Lula contempla dois tipos de coisas: críticas ao governo, menos ou mais ácidas, a depender da ocasião; e críticas ao PT.
O desfecho passa por um apelo para que o partido esteja sempre pronto a apoiar o governo.
“Nem o PT sobrevive sem Dilma nem Dilma sobrevive sem o PT”, voltou a repetir. “Se Dilma fracassar é o PT quem fracassa e eu não vim ao mundo para fracassar”.
Ou seja: o governo Dilma é ele. O PT é ele. O futuro do projeto de poder do PT está nas mãos dele. 
Lula imagina que a situação seria outra se Dilma tivesse abdicado da ideia de tentar se reeleger. Foi o que ele esperou que ela fizesse no ano passado.
E por isso desarmou eventuais iniciativas daqueles que o assediaram pensando em forçar Dilma a se aposentar. Uma iniciativa abortada tinha a assinatura de líderes do PMDB.
Há exatamente um ano, Lula recepcionou em São Paulo uma comitiva de senadores do PMDB integrada por Renan Calheiros, José Sarney, Romero Jucá e Jáder Barbalho.
Queriam saber se ele concordava em concorrer ao terceiro mandato presidencial.
Lula deu a entender que sim, mas disse que tudo dependeria de Dilma. Não se sentia à vontade para constrangê-la a sair de cena. Mas se ela saísse por vontade própria...
Agora, Lula sente-se à vontade para pavimentar seu retorno ao poder. O PT não tem outro candidato.
O PSDB tem três – Aécio Neves, José Serra e Geraldo Alckmin. Lula derrotou Serra em 2002 e Alckmin em 2006. Calcula que poderia derrotá-los outra vez.
Quanto a Aécio... Acha que ele dará um jeito de não atravessar o seu caminho. Conta com o apoio do PMDB, que não tem candidato a presidente.
Aos que pensam que ele não se arriscará a uma derrota... Lula sofre do mal que atinge quase todos os candidatos: acredita piamente que poderá vencer. Ou melhor: que deverá vencer. 
Lula (Foto: Ricardo Stuckert / Instituto Lula)Lula (Foto: Ricardo Stuckert / Instituto Lula)

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