sexta-feira, 29 de março de 2013

TENHO TODO O TEMPO DO MUNDO E NÃO VIVO!


Carlos Costa é jornalista
 Agora, que tenho todo o tempo do mundo não tenho tempo para viver como gostaria.
 Não consigo mais caminhar pelas ruas centrais de Manaus, de mãos dadas com minha esposa Yara porque, mesmo ainda só com 53 anos, perdi o equilíbrio e não conseguiria ficar disputado espaço com barracas de camelôs no meio da rua – autorizadas ou não, obrigando a me desviar de lixo ou  sentindo o cheiro podre de urina. Hoje, vivo apenas das lembranças de uma cidade que já fora  chamada de “sorriso”, pelos locutores da Rádio Difusora, principalmente pelo seu dono, Josué Cláudio de Souza Filho.
 Também não consigo caminhar como gostaria porque as ruas e as calçadas são sempre irregulares, os carros estacionam nos locais demarcados para usuários de cadeiras de rodas, que sofrem muito para receberem esse sagrado direito de ser livres e não prisioneiros de suas lembranças de quando podiam caminhar livres leves e soltos. Embora saiba que alguns já nasceram assim, usando cadeiras de rodas, vítimas que foram do remédio talidomida, muito usado como prescrição “milagrosa” pelos médicos mais antigos, que prejudicando mães na gravidez ou de terem nascido com outras doenças, como a pólio, por exemplo, que também lhes tirou movimentos em passos calmos, lentos, quase preguiçosos pelas ruas, como eu também fazia, observando tudo.
 Agora que tenho tempo de sobra pouco frequento as feiras do peixe ou da banana, na orla de minha antiga cidade sorriso,  que hoje se apresenta com dentes podres na boca alva e perfeita porque falta de estacionamentos privativos para cumprimento das Resoluções 303 e 304 do Conselho Nacional de Trânsito e também porque tenho pouca paciência para ficar procurando vagas em locais que deveriam existir por direito. Não, por favor! Recuso-me a esse constrangimento! Não desejo disputar espaços com taxistas, táxi cargas, táxis fretes, moto-táxi porque deveriam existir, também vagas sinalizadas, demarcadas e exclusivas para cadeirantes, portadores de necessidades especiais, idosos etc.
 Agora, que tenho todo o tempo do mundo, sinto-me prisioneiro  dentro de meu próprio apartamento e, da  varanda onde escrevo agora, olhando para uma grande piscina com águas azuis, flores amarelas, ouço canto de pássaros despejados pela força do “progresso” que só vê $ à sua frente e que nem olha para o futuro!
 Agora, que tenho todo o tempo para fazer o que também gostava, fiquei proibido de dirigir pelos médicos que mantêm minha vida. Hoje, Manaus, uma cidade com quase dois milhões de carros e me dá melancolia ao lembrar que se andava sossegado pelas ruas sem asfalto, saneamento, muitas sem luz, mas era feliz, com a Central de Polícia funcionando no centro da cidade em um casarão antigo e o “senhor Jóia”, que atendia aos repórteres com tanta educação!  Essa cidade antiga de minha lembrança dolorida quase não existe mais, como também não existiam tantos vendedores ambulantes com barracas padronizadas e com lonas vermelhas, ainda, sem ambulantes – eu fui um deles, mas ficava sossegadinho em meu canto e recolhia meu próprio lixo produzido.
 Agora que tenho todo o tempo do mundo para tudo, consigo ver raras araras voando livres na natureza, periquitos voando soltos, poucos pássaros...Vivo em uma cidade desmatada, careca e quente. Não frequento livrarias; não tenho dinheiro para adquirir os objetos comercializados: livros, fonte de meu prazer desde os 14 anos de idade. Enfim, me transformei em prisioneiro das lembranças em uma cidade destroçada pelos concretos, prédios, ganância, com ruas invadidas por ambulantes que produzem mau cheiro de suor e urina e lixo e, pior, ainda vendem produtos contrabandeados  e sem nota fiscal e sem recolher impostos!

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